O RIO E O OCEANO

Diz-se que, mesmo antes de um rio cair no oceano, ele treme de medo.
Olha para trás, para toda a jornada, os cumes das montanhas,
o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos
povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar
nele nada mais é do que desaparecer para sempre.
Mas não há outra maneira.
O rio não pode voltar.
Ninguém pode voltar.
Voltar é impossível na existência. Você
pode apenas ir em frente.
O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.
E somente quando ele entra no oceano é que o medo
desaparece.
Porque apenas então o rio saberá que não se trata de
desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano.
Por um lado é desaparecimento e por outro lado é
renascimento.
Então, não se preocupe. As coisas estão acontecendo perfeitamente bem para você.

O processo de amadurecimento humano frequentemente se assemelha à jornada poética de um rio em direção ao oceano. Assim como o rio, enfrentamos momentos de profunda ansiedade e medo diante das grandes transformações em nossas vidas.

Do ponto de vista psicanalítico, esse medo do desconhecido é natural e até necessário. Representa o embate entre o ego – nossa parte consciente que busca segurança – e a necessidade inevitável de crescimento e transformação. O tremor do rio simboliza nossa resistência inicial à mudança, mesmo quando ela é inevitável.

Quando olhamos para trás, assim como o rio contempla seu percurso, vemos nossa história pessoal – experiências, aprendizados e desafios superados. É comum sentirmos nostalgia e até mesmo o desejo de retornar a estados anteriores, aparentemente mais seguros. Porém, como bem expressa a poesia, “voltar é impossível na existência”.

O processo de individuação, conceito fundamental da psicologia analítica, está belamente representado na metáfora do rio que se torna oceano. Não se trata de uma simples mudança, mas de uma transformação profunda da identidade. O medo inicial do desaparecimento se revela, na verdade, como uma expansão do ser.

Frequentemente os momentos de maior crescimento pessoal são precedidos por períodos de intensa ansiedade e resistência. É natural temermos aquilo que nos parece maior do que nós mesmos. Porém, assim como o rio que se torna oceano, descobrimos que nossa essência não se perde – ela se expande e se transforma.

O “renascimento” mencionado no poema reflete o processo terapêutico em sua essência: não é uma morte do que somos, mas uma expansão de nossas possibilidades. Quando aceitamos a inevitabilidade da mudança e nos permitimos fluir com ela, descobrimos recursos internos que nem imaginávamos possuir.

Este processo de transformação e crescimento é contínuo ao longo da vida. Cada nova fase traz seus próprios desafios e medos, mas também suas próprias descobertas e expansões. O segredo está em compreender que, assim como o rio, nossa natureza é fluir e transformar-nos continuamente.